quinta-feira, 12 de julho de 2012

TIO SAM VAI DANÇAR XAXADO, XOTE E BAIÃO

Após lançar para todo o Brasil seu mais recente trabalho Minha Metade, o cantor, poeta e compositor Maciel Melo seguiu nesta madrugada para os EEUU a convite de Paulo André da Astronave, mesma empresa que faz o Abril pro Rock. Ele se encontrou na Womex com Bill Braggin do Linconl Center e falou da ideia de levar um pouco do forró, aproveitando o centenário de Luiz Gonzaga. Maciel se apresenta com Biliu de Campina, Walmir Silva e o Quarteto de Olinda fazendo um Tributo a Gonzaga no Linconl Center, dia 13/07/12.

Maciel Melo faz parte do primeiro time de artistas Nordestinos que de forma competente e responsável vem contribuindo para o engrandecimento da nossa cultura. Este lançamento nacional é prova do reconhecimento do seu talento e perseverança. Competir com o chamado forró de plástico que recebe investimentos e incentivos de toda espécie não é fácil nos dias de hoje.

Tenho absoluta certeza que seremos bem representados lá fora por este grupo seleto de artistas, todos afinados com as nossas raízes mais autenticas.

Entrevista concedida por Maciel Melo para a REVISTA ALGO MAIS. Considero a melhor e mais competente entrevista já feita com o artista durante a sua carreira até o momento.

Participaram: Ivo Dantas, Maria Paula Resende e Luiza Assis
* * *

O forrozeiro conta da sua paixão pela música e da luta para que o forró seja reconhecido em todo o país
Maciel Melo nasceu em Iguaraci, cidade do sertão do Pajeú. Aos doze anos acompanhou o pai que foi trabalhar na construção das barragens de Paulo Afonso. Viu o pai, sanfoneiro, tocar forró para aumentar a renda da família de 11 filhos. “Meu pai quando não estava viajando, estava em casa, tocando com um monte de gente no quintal”, afirma. Aos 18 anos saiu de casa, investindo no sonho de viver de música. “Eu saí do sertão, mas o sertão não saiu de mim. Gosto de fazer forró porque eu gosto de falar das coisas do sertão, de mato, bode, açude…”, se declara. Completando 30 anos de carreira, ele se prepara para sua segunda viagem internacional: tocará em julho, nos Estados Unidos, num concerto em homenagem aos 100 anos de Gonzaga, seu grande ídolo. Apesar disso, não poupa críticas a o pouco espaço dado ao forró, e à música nordestina, em geral. “O brega só é brega enquanto Caetano Veloso não grava”, alfineta com humor.

Algomais | Então você sempre foi ligado ao forró?

Maciel Melo | Sempre fui. Mas na verdade o primeiro disco que eu gravei foi mais voltado pra cantoria, menestrel, uma música mais“ complicada” de se entender. Em83, eu conheci Xangai, Vital Farias…Nessa época o forró começou a decair de qualidade, começaram a introduzir aquele duplo sentido já meio pesado, que em relação a hoje era uma maravilha(risos). Aí eu, como filho de forrozeiro, me senti na obrigação de fazer forró. Na realidade eu ia seguir outro caminho, outro atalho nesse meio. Mas devido a isso eu decidi“ entrar” para o forró, foi quando fiz o Caboclo Sonhador, foi uma necessidade de poder contribuir
de alguma maneira pra que fortalecesse um pouco mais.

AM – Você se preocupou em criar ume estilo próprio ou em incorporaras coisas que já ouvia?

MM – Na realidade, essa questão de estilo próprio é natural, né? Com o tempo você vai achando a sua linha de trabalho, naturalmente você vai se encontrando. Não teve aquela coisa de forçar a barra, escolher um estilo e tocar aquilo. Porque eu acho que estilo é uma coisa muito pessoal, de caráter, personalidade. Você não escolhe, já nasce com ele. E você associa isso a sua criação, a criatividade. Na realidade, eu sempre fui esse forrozeiro que eu sou hoje. Quando eu fiz meu primeiro disco eu estava usando um estilo que não era o meu, aquela coisa de fazer teatro, de fazer uma coisa até meio elitista, de certa maneira. Além dessa história de fortalecer o forró, uma vez fui assistir a um show deum forrozeiro, e comecei a prestar atenção que a música dele falava do homem do sertão, usando os termos, usando a linguagem, o sotaque, mas o povo não tinha acesso, porque era uma coisa pra e eu achei aquilo uma contradição. Como é que você está usando as coisas do povo e o povo não tem acesso a elas? Não estou tirando o mérito dele, ele é um gênio, mas pra mim não funcionava dessa maneira, eu tinha que fazer uma coisa que ajudasse as pessoas de alguma forma. Foi quando decidi continuar fazendo forró.

AM – Seu pai seguiu a carreira de forrozeiro?

MM – Não, ele tocava pra sustentara família, tinha outras funções. Naquela época, no sertão, quem não era formado não tinha onde trabalhar. Ele era músico porque precisava complementar as coisas de casa. Ele tocava, trabalhava, quando chovia ia pra roça. Essas coisas de sertanejo de saber se virar.

AM – E você sempre soube que queria ser músico?

MM – Sempre. Eu trabalhei até os18 anos porque fui obrigado, pra ajudar uma família de 11 filhos. Quando eu completei os 18, eu saí de casa e fui viver de música.

AM – Existe um momento que define quando você se tornou profissional?

MM – Sim. Em 85, quando o Quinteto Violado gravou minha primeira música em disco, chamada Erva Doce. Eu já tinha o intuito de ser profissional, já tocava em bar, participava de festivais em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Salvador. Mas a partir do momento que o Quinteto gravou a minha música eu comecei a pensar em gravar um disco, foi quando eu produzi o meu primeiro cd, Desafio das Léguas, que não tem forró, é bem eclético.

AM – A decisão de sair do sertão teve relação com a carreira?

MM – Na verdade eu nunca saí do sertão, nunca perdi o meu sotaque. Desde que eu deixei de morar no sertão, eu volto lá, pelo menos, duas vezes. Quando eu voltei de SP, eu precisei passar um tempo no sertão, porque eu saí de lá com doze anos e desde então morei em centro urbano. Então determinadas coisas você vai esquecendo, foi uma questão de se reaproximar das raízes, foi quando eu comecei a compor só para o forró e querer trazer elementos que eu usava na cantoria pra ele: uma poesia mais elaborada, um conceito diferente. Essa história de que o matuto fala errado é mentira, quem fala errado é porque não teve condições de estudar. Ninguém quer, ninguém gosta de falar errado. Eu vejo essas novelas mascarando, utilizando nosso cenário pra fazer uma caricatura, aí fica aquela fala arrastada, mentirosa. Eles fazem isso porque precisam vender, aí criam todo o drama. O sertanejo sempre foi muito trabalhador.

AM – Quais foram às dificuldades dessa carreira?

MM – A dificuldade maior que eu tive e continuo tendo, é a viabilização do trabalho que eu faço, é o acesso. Quer queira quer não, ainda existe certa discriminação do trabalho do nordestino em relação a um trabalho de São Paulo, do Sul em geral. Todo trabalho que vem de lá todo mundo diz que é bom, agora o daqui, não. A globalização, nesse sentido, só funciona de fora pra dentro. Tudo que vem de lá eles empurram goela abaixo, a gente tem que engolir. É como se o mundo girasse em torno deles, e não deveria funcionar dessa maneira. A gente tem que brigar, porque tocar no rádio é difícil, aparecer na televisão é difícil. Eu estou fazendo 50 anos e agora é que as pessoas estão começando a me receber porque chega um momento em que você não tem mais como negar a existência de alguém. Eu estou numa fase em que o meu trabalho já se tornou consistente e não tem mais como esconder. Às vezes eles fazem esse tipo de coisa que é pra ver se a pessoa desiste, se cai fora, pra colocar uma coisa de fácil consumo, de alienação. Pergunta a um menino de dez anos se ele sabe quem é Luiz Gonzaga que ele não vai saber, agora Michel Teló ele conhece. Quando eu era menino eu tinha que aprender quem era Frank Sinatra porque tinha no livro, mas não tinha quem era Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro…

AM – Quem foram os músicos que lhe inspiraram?

MM – Luiz Gonzaga, Chico Buarque, Gilberto Gil, Geraldo Azevedo, Bob Dylan, alguns violeiros. Eu escuto tudo. Eu tenho uma discoteca de quase quatro mil CDs. Fico indignado quando chego numa loja de disco e vejo uma prateleira de MPB e outra só de forró. Então forró não é música popular brasileira? É japonês? Eu prefiro misturar tudo.

AM – Você gosta de compor sobre o quê?

MM – Sobre o cotidiano. Pra mim, você tem que fazer uma música que tenha uma mensagem, uma representatividade. Uma nação é vista pelo que ela produz culturalmente.

AM – Se dependesse do gosto musical de hoje, como seria a visão da cultura pernambucana?

MM – Se você fala desse forró midiático, isso não é forró não (risos). É um negócio que os caras inventam pra ganhar dinheiro, muito irresponsável. Essa coisa do mercantilismo para imbecilizar as pessoas. Eu nem gosto de comentar sobre isso, porque eu só discuto o que existe e pra mim isso não existe. Isso aumenta minha vontade de fazer um trabalho bem feito, porque essas coisas cansam, existem hoje e amanhã não existem mais. Com dois meses aparece outra. Sempre vai existir, a gente vive num país diversificado, democrático e vicioso. Essas coisas passam e o que é bom fica. Cabe a gente educar nossos filhos. Disco, livro, isso tudo era pra ser mais barato, o governo deveria subsidiar e ajudar.

AM – Existem duas ideias que prejudicam a música pernambucana: a de que o lugar de frevo é no carnaval e o de forró, no São João. Como você vê isso?

MM – Isso é a maior besteira que existe. O frevo é uma música como outra qualquer. A diferença, por exemplo, entre o frevo e o jazz, é o andamento… e que um é americano e o outro, pernambucano. O Spok esta provando que é uma música que pode ser tocada o ano todo. É uma questão nossa de discriminar, de rotular. Um forrozeiro não pode cantar frevo? Eu posso cantar o que eu quiser! Isso é coisa de gueto, de nação cheia de picuínha, de “pantim”.

AM – Você também tem composições com teor político.

MM – É, em determinado momento eu já fiz isso, fiz essa besteira. Tem coisas que não dá pra engolir calado, aí como poeta, compositor, eu tenho que reclamar. Se a gente não reclamar esses caras vão passar a vida inteira mamando e agente sustentando. Cada um tem sua maneira de expressar. Eu fiz isso na minha adolescência, cheguei a fazer uma música pra Lula, até cantei pra ele. Isso me orgulha porque foi um camarada que eu fiz tudo pra que ele ocupasse o lugar em que chegou. Na minha adolescência eu brigava de ficar intrigado com o povo, pra ver se mudava algo. A política tem muita gente boa e ruim. Ultimamente eu tenho evitado compor sobre isso porque eu sangro muito quando estou falando de política, boto pra quebrar mesmo.

AM – Sobre seu lado poeta, todas as suas poesias viram música?

MM – Na verdade, quando a pessoa sabe fazer música ela consegue transformar qualquer texto. Mas tem coisas que só prestam dizendo, tem coisas que eu escrevo que se cantar ela dispersa. Se você parar pra analisar, tem músicas que fizeram/fazem sucesso que se você achar o papel no chão, você rasga na hora. Ai quando você coloca um ritmo, a coisa vai entrando… nisso você acaba ate engolindo umas coisas pesadas, principalmente se for em inglês. Eu sou meio cismado porque não sei falar inglês, eu sei lá se o cara tá me xingando?

AM – Como você vê o papel do setor público na gestão da cultura?

MM – Eu não tenho propriedade pra falar disso, mas eu acho que nunca se fez tanto pela cultura, em Pernambuco. Essa questão da valorização, de criar espaço. Nós criamos uma associação dos forrozeiros que é sempre atendida pelo governo, nas reivindicações. É lógico que tem gente que fica pendurado, esperando os caras. Esse negócio de artista chapa branca é uma merda. Eu acho que o artista tem que brigar pelo seu espaço. No geral, o Brasil tem que melhorar muito nisso. Existe verba pra isso, o que faltam são pessoas que distribuam essa verba igualmente, sem discriminação.

AM – Você acha que a internet veio pra alienar ainda mais os jovens ou pra ser mais um meio de divulgação?

MM – É um meio de divulgação, mas é um pouco perigoso. Em termos de divulgação é maravilhosa, porque facilita, através das redes sociais também. Mas vai acabar com o disco. Antigamente você comprava um disco, ficava observando a capa, o trabalho do artista gráfico, do fotógrafo. Depois veio o cd, agora é num pen drive. Daqui apouco vai ser feito e jogado direto na internet. Essa questão da pirataria é uma merda. Geralmente quem tem talento não tem dinheiro e quem não tem talento tem muito dinheiro… o jabá foi inventado pelos hipócritas. Pelos que acham que tendo dinheiro, podem comprar estúdio, horário em rádio, TV… a gente é mambembe mesmo.

AM – Atualmente, quem você destacaria que tem feito um forró de verdade?

MM – Flávio Leandro, Cezinha, Beto Ortiz, Nádia Maia, Cristina Amaral, Irah Caldeira, a banda Fim de Feira, Silvério Pessoa, Elba Ramalho, Nando Cordel. Mas tem gente que prefere não ser chamado de forrozeiro.

AM – Como surgiu essa sociedade de forrozeiros?

MM – Surgiu há uns dez anos, da necessidade de colocar artistas daqui pra trabalhar, artistas que não tinham espaço. Teve uma época que vinha muita gente de fora, cantava duas, três músicas de forró, pegava o dinheiro e ia embora. Hoje em dia, quando a prefeitura ou o governo precisam de algum, ligam pra associação e a gente é quem indica. A gente tem muito essa coisa de apadrinhamento, um toca no disco do outro, cede uma música pra cantar. Já melhorou bastante. A Bahia faz muito isso. Podem quebrar o pau nos bastidores, mas na hora de ir pra televisão é um falando bem do outro. Isso ainda não funciona com a gente porque pernambucano é muito sincero, sisudo, se ele não gosta, não gosta.

AM – E os planos para o futuro?

MM- Tem muita coisa porque esse ano eu faço 50 anos e 30 de carreira. Eu gravei um DVD no teatro Boa Vista com participações de Chico César, Jorge de Altinho, Beto Ortiz… tem também um documentário que está sendo feito sobrea minha vida. Estou lançando meu disco de 50 anos, que se chama Minha Metade, que deve sair no começo de junho, com participação de um monte de ídolo meu. Esse nome é porque uma cigana disse que eu iria viver 100 anos. Tem um livro que estou escrevendo há 23 anos, um romance autobiográfico, mas que não tenho previsão de lançar.

AM – Você compõe no computador?

MM- Eu estou usando o computador, tentando me acostumar. Mas até pouco tempo atrás eu usava papel de cigarro, papelão, qualquer coisa que eu encontrasse, ia escrevendo. Rabiscava e guardava. Às vezes perdia, ou guardava na lembrança e esquecia. Hoje em dia você salva no computador e dá tudo certo.

AM – Qual a história mais curiosa de uma canção sua?

MM – Falcão me pediu que escrevesse uma música pra ele, é até inédita. A história dela é que um dia eu fui fazer um show em Carnaíba, e fiquei mais uns dias na cidade pra conhecer o lugar… os camaradas de lá sabiam que eu gostava de guiné, aí marcaram uma cantoria com uns violeiros, fizemos uma rodada de recital. No meio disso tinha um cara agoniado pra ir embora, chamando o amigo. Ele insistiu tanto que o outro perguntou o motivo da pressa. Ai ele disse: é porque minha mulher é que nem papel de bodega, só dorme com peso em cima. Aí a música veio na hora: mulher de bodega. Compor pra mim é uma coisa natural… não tem essa coisa de me concentrar, acender uma vela. Se eu tiver liso, aí é que eu componho mesmo, porque eu vivo disso, a inspiração tem que vire qualquer jeito! Eu tenho essa facilidade, eu consigo me transportar muito fácil e falar das coisas que eu gosto.
Fonte: Besta Fubana/ Balcão de Bodega

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